Crónicas de um Sem Nome – Parte 5

Estava correndo numa calçada, á noitinha, pra manter-se em forma, num ritmo pausado e sem ziguezagues, quando de repente ele sentiu que havia alguém o perseguindo. A pessoa cuja perseguição ia sendo materializada, possuía um casaco bege com capuz, e aproximava-se a passos não apequenados. O Sem Nome acelerou rapidamente de modo a fugir dessa possível ameaça, porque no bairro onde vive é frequente haverem assaltos e roubos protagonizados desta forma. Foi um forte descuido da sua parte, afinal, “dar calças roda” naquele lugar num horário delicado e com um alto nível de “perigosidade”, pode ser catastrófico. O seu coração começou a bater num ritmo frenético, se assemelhando aos batuques que regem a dança puíta, pois o pânico dançava nos seus pensamentos e emitia sons causadores da fobia invés da folia.

O desespero ia tomando conta da alma, cada centímetro dos escassos cabelos na cabeça pressentiam que não haveria um método de escapatória. Então, ele foi apanhado, o seu perseguidor possuía patins no lugar dos pés, por isso esta rapidez e aproximação repentina. No entanto, ao tirar o capuz, revelando a sua cara identitária – que, diga-se de passagem, o deixou muitíssimo surpreendido-, e após pronunciar o nome que ainda provocou uma surpresa bem mais avolumada, o Sem Nome acordou do sonho com gosto de pesadelo. Sim, era apenas um sonho não tão estranho, devido às últimas reais informações recebidas ultimamente. Quando se levantou pra pegar no relógio e confirmar a hora, reparou que faltavam 43 minutos para ás 3h da manhã. Era cedo demais, o sono já tinha “bazado”, mais um dia de insónia, restava deitar e esperar que “ele” retornasse, mas o conteúdo do sonho não saía da sua mente. O tal Rodolfo apareceu no seu inconsciente, para atormentá-lo enquanto dormia, e isso pra o Sem Nome, não significava “boa coisa”.

Uns bons minutos passaram, continuava sem conseguir voltar a adormecer, logo, se levantou outra vez pra pegar num livro. Tentando que a leitura do “100 anos de Solidão” de Gabriel Garcia Márquez, ajudasse a atingir a concepção sonífera mais relaxante. Todavia, não houve eficácia. Os ramos pensantes do cérebro desejavam pensar na garota exótica que passou a ter nome: Érica. Esta garota que já o fez sentir as maiores vibrações de amor, que provocou muitas lágrimas de saudade e esperança, que o traiu e agora é mãe de uma menina, vivendo sob o mesmo teto com o tal Rodolfo, nos tempos atuais, recebe maus tratos do companheiro, desde ameaças, violências psicológicas e físicas, debaixo dos olhares da medrosa família do jovem pai, cuja inibição, pouca vontade de “meter a colher” têm sustentado uma catadupa de ações “dexemplares” que se não forem impedidas poderão acabar em tragédia.

O Sem Nome ficou a par desta triste novidade, no dia em que recebeu a mensagem pelo celular, enviada pela própria Érica. Contando todos os sufocos que ela tem passado, mostrando um arrependimento por tê-lo traído e pedindo-lhe ajuda para escapar desta situação caótica. No princípio, a raiva e o ressentimento, começaram por falar mais alto. Uma vontade de vingança passou-lhe pela cabeça, pois queria ter o dom de não mover nenhuma palha para ajudar a traidora exótica. Mas, os sentimentos por ela, que estavam adormecidos, voltaram a acordar e ele viu a necessidade de procurar ajudá-la. Pois, a sua preocupação e envolvimento na questão, acaba sendo duplamente mais forte porque ele sempre aprendeu e defendeu que as mulheres não devem ser objetos de pancada, ainda mais, pelo facto desse caso estar relacionado com alguém que ele… continua amando.

O problema é que ela não deseja denunciá-lo. Tem receio das represálias que poderão cair nos seus ombros, considerado o lado mais fraco. Porque a justiça em São Tomé e Príncipe muitas vezes protege as pessoas economicamente mais robustas, em detrimento daquelas mais magricelas. Além disso, o tal Rodolfo, que se encontra decidido em mostrar a sua real faceta de jovem rico, irresponsável e cruel, costuma fazer variados anúncios ameaçadores de morte. Lembrando também que o mesmo, segundo as boas ou más línguas, anda metido até a sua última fita de “cundú” no tráfico de drogas, o qual, ele também é um usuário a caminho da dependência. Pois, por detrás daquele bonitinho rosto tem uma feiura muito fácil de ser detectada quando se passa a ver mais de perto. O que deve ser feito para tirá-la das mãos desse monstro? Perguntou a si mesmo antes de adormecer como uma pedra. Eram 4h16, domingo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *