Crónicas de um Sem Nome – Parte 4

Curioso. Desde ontem, o Sem Nome tem recebido alguns telefonemas de São Tomé, mas a pessoa tem desligado assim que ele começa a falar. Será problema de rede? Talvez, mas as suas desconfianças estão apontadas para a traidora exótica, que segundo vários rumores e fofocas, já conseguiu parir um bebé para a Existência, e passou a morar na casa da mãe do “papé” da menininha, onde se encontra quase como prisioneira de guerra. Pois, também chegaram aos seus tímpanos, diversas mensagens de que ela tem passado por situações não muito dignas de sorrisos resplandecentes. Aquele Rodolfo, tem tido um comportamento parecido com o de um polvo, que com os seus tentáculos absurdos, vai estrangulando toda a felicidade que ela esperava adquirir na escolha feita. “Deve estar arrependida, por isso anda a ligar” pensava por dentro, no preciso momento em que o professor lhe colocava um enunciado de prova em mãos, a qual nem tinha estudado e se preparado como não era costume.

Enquanto caminhava a pé, de regresso á casa, bastante desiludido com o seu triste desempenho na prova, pois sabia que poderia ter feito bem melhor, ele deparou-se com uma situação, em plena rua, que o deixou revoltado. Uma mulher de meia idade que ele não conhecia de parte alguma, brasileira, aproximou-se pra “puxar” conversa, e lhe perguntou de uma forma inacreditavelmente “sem noção”, se o lugar de onde vinha, a África, as pessoas só moravam em cima das árvores e se, “nós” os africanos tomávamos ou não tomávamos banho por causa dessa tonalidade de pele tão “negra”. Com uma expressão mais natural do mundo, pois pra ela, esta simples abordagem não tinha nenhum carácter preconceituoso e ofensivo. O Sem Nome, que foi apanhado de surpresa, permaneceu calado durante poucos segundos, e respondeu de forma séria e sem demonstrar qualquer agressividade: “Quem mora em árvores são os pássaros e como sou um ser humano que nem a senhora, mesmo tendo uma “cor” diferente, também tomo banho!” Após afirmar isso, virou ás costas e foi se embora, deixando a senhora com uma cara de constrangimento.

Tinha desistido de ir pra casa. Pensou em dar um “salto” até uma pracinha, que não ficava tão longe do seu “cúbico”. Precisava espairecer e tomar ar fresco, debaixo daquela árvore que servia de resguardo para aquela manhã ensolarada, que estava próxima do meio dia. Desejava refletir frescamente. E a sua reflexão foi para o facto do Brasil ser um país composto por uma maioria negra, que desconhece o seu passado histórico e as relações ancestrais com o continente africano. Daí que as situações discriminatórias e de “embranquecimento” mental têm ocorrido nas mais diversas regiões. O racismo é um problema muito bem enraizado na sociedade mundial, para quebrá-lo é preciso um trabalho árduo de “desconstrução” de preconceitos. O Sem Nome sabe disso, e deseja dar o seu contributo.

Já passavam 30 minutos, ali sentado naquela relva verde, quando a sua visão descobriu a Cadijatu, vindo ao seu encontro com aquele sorriso largo, lindo e compreensivo. Estão namorando, e ela tem feito muito bem a ele. Depois de terem saído, naquele dia, da sessão de Cinema, os seus corações estavam ligados pela flecha do Cupido e abençoados pela deusa Vénus. Mesmo sem esquecer a garota exótica totalmente, ele sente que aos poucos vai conseguindo arranjar mecanismos de superação. A “Pipoquinha Negra”, o nome carinhoso que ele deu pra ela, é uma jovem muitíssimo companheira que tem encantado o são tomense, cujo olhar fica todo envidraçado quando vê aquele rosto guineense sorrindo sem parar. Cada dia que passa, o sentimento vai aumentando.

Decidiram passear de mãos dadas pela cidade, conversar sobre assuntos românticos, dar boas risadas juntos e lançar observações nas questões mais sérias. Em que o Sem Nome falou da abordagem preconceituosa que sofreu na rua e sobre os telefonemas misteriosos que tem recebido. A Pipoquinha conhece toda a história, ela tem sido uma confidente ideal, mesmo sentindo que, ás vezes, essas confidências sejam demasiado pesadas, ferindo os seus próprios sentimentos em relação a ele. Mas sempre tem estado presente sem pressionar ou exigir mais do que pode. A verdade dentro dum relacionamento é uma preciosidade, porque só desta maneira os laços poderão ser construídos com um grau de legitimidade forte e permanente. Então, uma mensagem entrou no telemóvel dele, o indicativo é +239. Sem ler a curta mensagem desde o início, já tinha detetado no final da mesma, o nome do remetente. Érica, ou seja, a traidora exótica.

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